sábado, 15 de março de 2008

Excessos do capitalismo

Excessos do capitalismo

Sempre que se aproxima uma data comemorativa e de forte apelo emocional ou religioso, com intensidade desenfreada os consumidores são atingidos incansavelmente pelos apelos do consumo. Já é tradição nos supermercados os "tetos" rebaixados com as inúmeras ofertas dos ovos de chocolate e seus similares. E assim acontece ao longo do ano, à medida que o calendário vai mudando as novas datas vão motivando e estimulando os consumidores.

O apelo ao consumo é constante. O perfil urbano incorporou a arquitetura do consumismo. Tanto, que São Paulo e Porto Alegre têm leis que limitam o avanço das propagandas externas buscando preservar o espaço público. Tudo, ao nosso redor, é produto, mercado, consumo.

As crianças, alvos potenciais da lógica do consumo, têm a mesma dinâmica do mercado e buscam com avidez as novidades da próxima data comemorativa. Aguardam sempre algo novo, mesmo que um novo diferente mas semelhante ao último recebido.

Faço estas reflexões pensando nas crianças cubanas. Lá, onde elas permanecem durante todo o dia na escola, os brinquedos sofrem as mesmas restrições que a maioria dos produtos de consumo essencial em consequência do forte bloqueio econômico dos Estados Unidos. E, claro, porque ao socialismo interessa investir em saúde, educação e habitação, especialmente. Mas como tudo na ilha de Fidel, a restrição estimula o criativo e as crianças, nas esquinas de Havana, próximo ao belíssimo Malecón, brincam felizes com sobras de uma fita cassete que ficam voando ao vento, como imensas pandorgas subindo ao céu. Em outras partes da ilha, é no arcaico rolimã que duas ou três crianças se aglomeram, com uma outra empurrando e, sorridentes, avançam pelas ruas e calçadas numa inocente brincadeira de infância.

Câmeras digitais, tênis modernos, tevês de tela plana, DVD, enfim, os ícones da tecnologia são o objeto do desejo dos cubanos que, agora, terão acesso a esses produtos, conforme anunciou Raul Castro. Tomara que os 50 anos de Revolução Socialista consigam conter na ilha os excessos do capitalismo que, sabemos todos, disponibiliza muito mais do que é necessário e transforma as pessoas em feromônios do mercado.

Francis Maia

Jornalista

Um comentário:

Francisco Magalhães disse...

Ótimo texto da Francis, as pessoas seguem o rumo desse rio violento, que é o capitalismo, sem se opor à correnteza.
Já se institucionalizou que na páscoa devemos correr aos supermercados para consumir chocolate, na sexta-feira santa devemos correr às peixarias, e no natal devemos necessariamente correr aos shoppings para presentear as pessoas que gostamos.

E quase não se questiona o seguinte:

Por que diabos as relações socais têm de girar, necessariamente, em torno da produção, circulação e consumo de mercadorias?

Um beijo pra Francis